domingo, 30 de janeiro de 2011

Vergonhas suomi...


Jarno Markuksen Kauneimmat, de Jarno Latva-Nikkola ; Setit ja Partituurit - Häpeällisiä tarinoita (Sets and Scores - Shameful Stories), de Hanneriina Moisseinen
(Huuda Huuda; 2010)

Dois livros de autores finlandeses de banda desenhada que em comum têm a participação na Glömp X - antologia e exposião que esteve patente na Feira Laica / Bedeteca de Lisboa (2009) - e terem livros cujo o tema central é a vergonha. No caso de Moisseinen é mais do que assumido, pediu estórias reais de situações embaraçosas de pessoas nos seus quotidianos finlandeses - como o episódio na sauna, por exemplo, em que uma tipa apalpa, na brincadeira, as nádegas de outra pensando que era uma amiga... Esta autora é bem relembrada por ter feito uma bd com bordados (que estavam dentro de uma tenda), aqui ela volta a esta técnica mas só num episódio ou noutro. O resto é pintura que lembra de alguma forma "ilustração para a infância" que tem um travo naíf para além de ser meio "free" meio desleixado. Desilude para quem esperava aventuras gráficas tecidas a agulha e linha...
Já o novo livro do Jarno também desilude porque não é um livro de material novo como foi o excelente Tunteiden Maisteri, mas sim uma compilação de bd's curtas, complementado por alguns desenhos. Mas as mágoas ficam por aqui porque é um abuso de páginas e páginas, estórias e mais estórias de episódios autobiográficos manhosos como este (em que participei), auto-ficções e parvoíces mundanas misturadas com fantasia épica da aldeia. As desgraças das personagens são sentidas mas invés de seguirem um caminho emocional linear, a dada altura tudo descamba para o rídiculo. Rimos do melodrama, do engodo e da miséria, tal como Lars von Trier, Jarno obriga as suas personagens a serem plásticas para manipularem os leitores. Há também "migalhas de Crumb" em algumas bd's, diria mais do início da carreira de Jarno mas infelizmente por falta de créditos não sabemos datas nem onde foram publicadas estas bd's para chegar a essa conclusão. Perkele!
Ah! Sim os livros estão redigidos em finlandês mas há as sempre úteis legendas em inglês no final das páginas.

Inteligent Dance Jazz Music


Lisbon Underground Music Ensemble (Jacc; 2010)

No Rescaldo recebemos o catálogo inteiro da Jacc Records - entidade discográfica da estrutura de promoção de música Jazz, responsável por festivais e a revista Jazz.pt - e ui-ui... que valente seca! Já não gostando de Jazz ou não sendo minha música de eleição, ainda ter que ouvir todos os clichés da coisa é mesmo do mais penoso. Mas no meio de coisas que nem consigo imaginar porque é gravado e editado (o CD do espectáculo dos putos é para fugir!) aparece estes L.U.M.E. que é de um "groove" feroz que raramente se encontra em Portugal. Relembramos que tudo que é criação artística em Portugal é sempre tudo muito paradinho, quietinho e calminho, mesmo que seja cinema de animação ou dança - o que parece paradoxal, não é? Mas estes L.U.M.E. abanam-se todos e explodem em rasgos de IDM misturado com uma Big Band sempre a dar em sopros foliões. Não sei se será inédito esta fórmula, de repente até me lembro do Matthew Herbert, produtor de música electrónica que saiu com uma Big Band em tempos. Nunca ouvi o Herbert Big Band não sei se é sequer comparável... no máximo lembra Mr. Bungle pelo caos-sample + cornetas em festa!
Num ano nada mau no que diz respeito a discos nacionais (Rudolfo, Red Trio, Yoshi o puto dragão, Tiago Guillul, Ghuna X, Besta Bode, HHY & The Macumbas, Apupópapa, ...) eis outro para juntar à festa. Estou mesmo a ver-me a por isso em sessões de unDJ, pá! Finalmente soltaram a franga!

Stand em Angoulême 2011

Stand da CCC e El Pep em Angoulême 2011:

sábado, 29 de janeiro de 2011

Objectos


s/t (ed. de autor; 2011?), de Lucas Almeida
O Baralho Belo Como (ed. de autor; 2010), de Ricardo Castro
Uma mão cheia de amoras (Massa Folhada, 4ª ed.; 2010) de Sara Simões

Para além dos zines a pontapé também se tem publicado vários outro tipos de objectos mais aliciantes para o fetichismo... O Lucas por exemplo apresenta uma bd numa lógica de "burning man" cheio de poluição industrial, fogo e decomposição. Um excelente trabalho de destruição de um sistema que aproveitou para imprimir em serigrafia (a imagem que foi selecionada não corresponde aos densos pretos e laranjas do livro). Foram feitas 10 exemplares em formato A6 e é certo que esta bd irá aparecer no Futuro Primitivo mas poderá estar misturado com outros trabalhos de outros autores... aqui está em estado puro e duro! (bem duro, que tinta pesada é esta!?)
Não consigo atinar com o Maldoror e toda o culto envolta do livro. E também não é desta que vou passar a ter interesse ou gostar. Castro fez um baralho de cartas, excelente ideia, não me lembro se alguém neste submundo da auto-edição já tinha feito isso. Baseou-se no livro do maldito Conde de Lautréamont para ilustrar as faces onde estão os valores das cartas (onde se identifica a Rainha de Copas e essa gente toda). Os desenhos balançam entre o desenho puro e signos mais artificiais do Design, sinceramente ainda não tive tempo para encontrar ligações entre cartas / desenhos ou esses signos, e perceber a lógica. Nem sei se há um cálculo mais sofisticado em relação à obra literária - que também não li e duvido que vá ler... Bom, o efeito é "cool" e fico-me por aqui. Mais vale ter um baralho assim do que um normal. Procurem-no!
E para o humano que ainda gosta de floresta que ainda falhou a completa mecanização tecnocrata do mundo. Sara Simões ilustra a floresta, tem o rigor do desenho científico para mostrar uma biodiversidade florestal cada vez em maior perigo de extinção. A edição é impressa no formato A6 em folhas em folhas de arquitecto, deixando transparências entre desenhos e dando a ilusão da «floresta primitiva, com carvalhos, sobreiros e azinheiras, que existiu na península ibérica».

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ccc@angoulême.2011

Chili Com Carne and associates labels El Pep and MMMNNNRRRG will have their own booth at the Comics Festival of Angoulême (F3 table / BD Alternative / Le Nouveau Monde / Place New York).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ufoja Lahdessa 3/4

Marko Turunen
Kreegah Bundolo; 2009

Este terceiro volume desta colecção de "comics" que compilam bd's deste finlandês marcou um intervalo da Daada Books, a editora que Marko criou e onde editou "luxuosamente" não só trabalho dele próprio mas também de outros autores finlandeses e estrangeiros. Não se sente que os valores de produção tenham caído e muito menos o conteúdo que continua a ser um tufão de ideias de como o quotidiano podia ser mais giro se fosse a preto & branco, a roçar o Sin City, com personagens fisicamente absurdas imersas em consumismo exasperante e alienação social e mental. A ironia é súbtil, os resultados lidos e vistos não!
De resto continua o belo suplemento de fenómenos bizarros com contribuições de pessoas que não percebem o mundo e acham que existem mesmo fantasmas e OVNI's - será uma forma de apimentar as suas bochechantes vidas? Acho que sim!

Para breve teremos todas novidades do regresso da Daada.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Zines a pontapé!

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O Atlas do Nada (Mosca; Dez'10) de João Ortega
Cleópatra #5 (Façam Fanzines Cuspam Martelos; Dez'10) de Tiago Baptista
Intro Espectro (Jun'10) de Tiago Araújo

Parece que os zines de bd voltaram - claro, já não existe outra vez nada! Logo os autores tem de pôr cá para fora a produção, até porque já perceberam que mostrar desenhos na 'net é uma grande treta! E assim, sem mais nem menos, têm aparecido produções, algumas com uma visão de work-in-progress, outras como uma experiência única. Claro que todas estas conclusões poderão estar erradas, as "work-in-progress" poderão deixadas cair (espero que não!) como as "auto-conclusivas" poderão ter alguma continuação.
O Atlas é um "one-shot" impresso em A4 mas dobrado na vertical sobre um tipo que vive isolado numa estação espacial. É miserável a sua condição pois é um excelente cartógrafo do Universo. Lembra uma bd de Filippo Scozzari, de um tipo da metereologia que vivia isolado num satélite para relatar as observações do tempo mas ao menos chagava a cabeça aos tipos que ouviam as suas observações metereológicas ao ponto de os levar ao suícidio. É muito dramático este Atlas...
O número cinco do Cleópatra é pela primeira vez um número especial: "Oh meu Deus! É o fim do cinema!". Truffaut, Manoel de Oliveira, Tarkovsky e Bergman acompanham Zé Cabeludo a verem as últimas bostas que Holywood produziu. Os diálogos desses filmes são reproduzidos enquanto os realizadores e Cabeludo se questionam porque raios estão a ver aqueles filmes. Há um ambiente Daniel Clowes nisto tudo - não é de admirar esta comparação porque parece assumida quando, na secção de resenhas, o Tiago Baptista escreve sobre um livro de Clowes. Indignado com o monopólio da distribuição cultural no país - o Tiago vive em Leiria, creio, ou pelo menos vai-se movimentando pelas Caldas da Rainha, Leiria e Lisboa - fez este zine onde não esconde a fúria no editorial e nas bd's. Também há racionalidade quando escreve: «devemos envolver-nos uns nos outros». A verdade é que a ilusão da Democracia deu a sensação que agora podemos ver / ouvir o que quisermos mas a máquina capitalista têm assimilado qualquer hipótese da produção de autor chegar às pessoas. Os Cineclubes nos tempos do fascismo ofereciam mais e melhor do que a Lusomundo nos dias da democracia. A questão é como revivar os Cineclubes ou qualquer iniciativa cultural independente que ofereça às populações locais um programa sem ser a cultura-pipoca. A luta continua, claro está! E é eterna, percebeu agora o Tiago?
O último título é um estranho híbrido de Emocore de segunda geração e personagens antropomorfizadas (tipo Sokal ou a série Blacksad) feito de páginas de vinhetas únicas e poesia da sarjeta teenager. Negro, solipsista e escatológico soft, passa-me tudo ao lado mas o texto parece-me que seja importante para o seu autor. Defeito máximo é a legendagem a computador! Esta bd é um tipo de trabalho que ao ser tão pessoal e introspectiva que ao ser legendada de forma mecánica perde o sentido. À la pata é que é!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Como se faz bd?


É sempre um desatino quando alguém pergunta como se faz bd. É constragedor quando se vê nos manuais escolares ou noutras situações com aquela coisa do "primeiro escreve-se o argumento, depois planifica-se a página, blá-blá-blá". Basta lembrar exemplos de "escrita automática" como as bd's de Jucifer ou ainda o Paris Morreu em que começou com 6 páginas desenhadas por Pepedelrey em que depois é foi colocado texto pelo Nuno Duarte, para dar conta de que há 1001 maneiras de cozinhar a bd. Estes dois números da colecção Dystopia (Wormgod + Sociedade Sueca de BD; 2010) - da Suécia e dirigida por Mattias Elftorp que esteve na última Feira Laica - são exemplos da fuga dessas ideias fordianas de como fazer bd.
No primeiro caso, trata-se do finlandês Jyrki Heikkinen (Salão Lisboa 2005, Greetings from Cartoonia,...) que desenlaça uma estória passada num mundo pós-apocalíptico em que tudo se confunde: a falta de ética, mutantes e animais falantes, a morte sob o aspecto de uma caveira falante e um grupo de rastafaris, e uma promessa de New Age qualquer. O estilo gráfico solto de Jyrki bem como a composição irregular das páginas (em que as vinhetas certinhas são completamente abandonadas) devem-se à sua carreira como poeta (intercalada com a de autor de bd), em que sentimos que a bd não está a ser "desenhada" mas a ser "escrita". E quando digo escrita não é num processador de texto mas sim à "velha guarda", ou seja caneta ou lápis em folhas de apontamentos, logo sem arrumação e cheios de urgência. As bd's de Jyrki são um caderno de apontamentos à primeira vista mas com rigor gráfico e narrativo apurado. O que parece é que quando "passou a limpo" deixou a mesma composição de página tal quando a escreveu/ desenhou em esboço e só assim se explica porque o frenesi deste The Moonboy!
Zombies dos suecos Mattias Elftorp e Susanne Johansson foi feito primeiro como uma exposição durante o Alt Com, ou seja era uma enorme pintura sobre os mortos-vivos e que percorria as paredes todas de uma sala (no bar de uma sala de cinema) e para vê-la era necessário entrar com um foco de luz (na cabeça) porque a sala estava à escuras. Esta pintura entretanto foi fotografada, montada para o formato desta colecção (uma espécie de A5) e acrescentado um texto que resulta numa bd. Engenhoso, não?

Já não temos estes volumes mas ainda existem outros disponíveis.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Segunda mãe



Initiated by Gamze Özer, Timothée Huguet and Kristina Kramer this project shows alternative publishings like zines, fanzines, artist books and self made editions. Following an open call participants from all around the world submitted their works.
The presentation at Apartment Project is the second in a series as the project has the aim to create an archive that will be expanding and traveling through different venues.
Chili Com Carne is represented (again) in this event with some nice books of ours.
Crazy organization by Bakkal Press.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Bárbaros do Norte!


Duas edições ligadas ao Festival Matanças - Dezembro 2010, Porto - ambas ligadas à adoração do Grande Bode.
A primeira é um CD, Aural Bowels (Latrina do Chifrudo + Let's go to war + Soopa; 201) que reúne bandas que já passaram pelo festival como Besta Bode, TendaGruta, Brutos da Natureza, New Tradicional Fang Music From Porto e outros projectos com nomes tão carismáticos que transitam do Metal para o experimental (e vice-versa?) passando pelo Free e o Industrial / Noise. No fundo o Metal já há muito tempo que passou a ter uma elite intelectual, tão activa e militante como os metaleiros normais, o que é melhor sempre que uma elite intelectual arrogantemente passiva como acontece em outras áreas artísticas. Seja como for, falta lumpen e toscaria porque Riffs com ambientes mórbidos já cá cantam! Capa de André Coelho, claro!
A segunda edição é já uma tradição, ou seja, outro "número" (o terceiro) do Enxebre, desta vez intitulado Meixedo Enxebre (Latrina do Chifrudo; Dez'10). É o número mais luxuoso e sofisticado a nível gráfico com a cópia lazer macia como a pele de Vénus e impressão brilhante como Apolo. Faltam os textos "think tank" que haviam nos números anteriores mas a entrevista aos Legião de Santa Comba Dão é bastante boa em que nem o puto Rudolfo (que fez o design deste número) é perdoado! As resenhas críticas aos discos continuam a ser o melhor do fanzine e a minha favorita é esta:«Eu gostava de Ash Pool. Agora já não." (e é tudo!). O André Lemos também faz aqui um bode para ser venerado!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ccc@rescaldo.2011


lá estaremos com uma mesa cheia de edições da CCC e outras nacionais e internacionais - e Sábado, o unDJ MMMNNNRRRG vai assustar a malta do Jazz...

«Um festival que retoma os nomes e projectos que tiveram relevância no decorrer do ano anterior, ao mesmo tempo permitindo uma perspectiva do que dos mesmos se poderá ouvir futuramente. Focado nas movimentações emergentes da electrónica, da improvisação, do rock e do jazz, o Rescaldo enfatiza ou dá a conhecer as linguagens e os músicos que merecem destaque devido ao contributo que vêm dando à vitalidade criativa das músicas feitas em Portugal.» + info AQUI

PROGRAMAQUI. 20 JANEIRO
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SUBTERMINAL // TEATRO A BARRACA // 23h00
JOANA SÁ / MARCO FRANCO // TEATRO A BARRACA // 00h00

SEX. 21 JANEIRO
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NUNO TORRES // SOL E PESCA // 19h30
PÃO // TEATRO A BARRACA // 23h00
PEDRO GOMES / GABRIEL FERRANDINI // TEATRO A BARRACA // 23h00

SÁB. 22 JANEIRO
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DAVID MARANHA / MANUEL MOTA // TREM AZUL JAZZ STORE // 22h00
FILIPE FELIZARDO // TREM AZUL JAZZ STORE // 23h00
SUNFLARE // TREM AZUL JAZZ STORE // 00h00
unDJ MMMNNNRRRG (DJ SET) // TREM AZUL JAZZ STORE // 01h00

MÁ ONDA E SUJIDADE #4

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Reeditado durante o ano de 2009 pela Hanson Records (editora de Aaron Dilloway, ex-Wolf Eyes) o primeiro LP dos americanos The Haters é um dos albúns fundamentais na História do Noise.

Afastado de alguns tiques recentes quer de idolatria de determinados efeitos e de uma certa formatação facilitista, tanto a nível de tácticas quer de conteúdos, quer de uma necessidade de ironia, "In the Shade of Fire" é um manifesto de celebração da força e das possibilidades do ruído. Sem interferências ou obrigatoriedade de referências que o contextualizem, subsiste pela fruição pura e dura. Hedonista e niilista.

À semelhança do que faziam os The New Blockaders em Inglaterra, este disco, assim como a maioria da sua extensa discografia, aponta para a cristalização de um momento sonoro e um esforço incisivo de análise microscópica do som, circular e repetitivo enquanto escava cada vez mais fundo sem chegar a lado algum.

Textural e orgânico, primitivo e imaginativo, "In the Shade of Fire" é uma colecção de curtas faixas variadas na sua contemplação auto-destrutiva. Títulos como "Explosions 3" e "Fire 5" são algo enganadores já que não é tão fácil como se poderia pensar descortinar como algumas das faixas foram produzidas e gravadas. Todo o albúm encarna um certo deslumbramento (estávamos em 1986) mas soa particularmente refrescante e relevante numa época de alguma sobreabundância e falta de direcção do Noise mais abrasivo.

Aqui apresentado pela primeira vez na sua versão integral, com liner notes de Sam McKinley / The Rita, afinal de contas sem discos como este não existiria HNW.

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Mais uma reedição fulcral no seio do metal mais obscuro, desta vez de uma das bandas mais injustamente remetidas ao esquecimento. Tão intensos e carregados de tanto negrume como os conterrâneos Witches Hammer ou Sacrifice, os Voor editaram apenas 2 demos em cassete durante a sua curta existência. Thrash Metal canadiano, do mais vil e sujo de que há memória, e uma das bandas que, tendo lançado tão pouco material, conseguiram uma influência tão marcante nas gerações futuras, a par dos Von ou dos Necrovore só para citar alguns exemplos.

Disponível pela primeira vez em vinil numa edição com a qualidade a que a Nuclear War Now! nos tem habituado, "Evil Metal" compila ambas as demos (há ainda uma versão die-hard com outtakes dessas mesmas sessões, assim com material dos Roswell, banda pós-Voor).

Mais uma peça chave no (inevitável) esforço de arqueologia do metal na última década.

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Após mais de 3 anos de preparação é bom saber que as elevadas expectativas foram atingidas, senão mesmo superadas. As Loud As Possible é o culminar de um esforço enorme de reflexão sobre o estado actual do noise e derivados, e se o seu olhar é também arqueológico (temos um artigo extensíssimo sobre o legado de má onda e ultra-violência da Broken Flag, a comemoração dos 30 anos dos The Haters, ou da zine de culto dos anos 80 Interchange), há igualmente uma análise do que melhor que se vem fazendo recentemente, da subversão da sexualidade submissiva do power electronics de Climax Denial à documentação do fervilhante underground de Gotenburgo pela figura de Dan Johansson (Sewer Election / Attestupa / Utmarken), até uma entrevista com Carlos Giffoni acerca do festival No Fun.

Como publicação atingiu a meu ver os propósitos a que se propôs, reunindo artigos, críticas e entrevistas de grande qualidade sobre algumas das figuras e momentos mais relevantes da História do género, sem o estigma da esquisitice de uma crítica outsider que tem vindo a incluir o noise pelo exotismo ou por outras razões menos louváveis, mas que muitas vezes não possui o conhecimento nem as ferramentas para o analisar e contextualizar da forma que merece enquanto género musical tão válido como qualquer outro.

Com a distância que 30 anos de História proporcionam mas sem um discurso hermético ou da nostalgia pela nostalgia, a As Loud As Possible é um momento marcante não só do noise como do jornalismo musical.

Fundamental.

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Uma muito improvável reedição de luxo (duplo DVD carregado de extras) de "Vase de Noces" (também conhecido como "Pig Fucking Movie") pela austríaca Camera Obscura, um inenarrável filme de culto que circulava há muitos anos no circuito das bootlegs numa cópia de péssima qualidade.

Trata-se de um filme passado num contexto indeterminado de pós-grande episódio de devastação, uma história de amor em decomposição que se desenvolve em torno de um dos derradeiros tabus, o bestialismo. Último homem na terra ou descida sem rede aos recantos mais depravados da mente humana, esta experiência radical do belga Thierry Zéno, co-realizador de um dos melhores mondo de sempre, "Des Morts" (1979), é um dos clássicos absolutos do underground. Transgressivo, visceral e ainda tão desconfortável como em 1974.

Cinema de fim da linha.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Tvvo tone

Tiago Guillul : V (FlorCaveira; 2010)

Este seria o Remain in light de Tiago Guillul, caso Guillul tivesse um Brian Eno a ajudá-lo como este produziu os Talking Heads. Este é o disco que deveria ser o "template" do Pop português há 20 anos atrás - curiosamente o citado disco dos Talking é de 1980 - fazendo a eterna marca de que Portugal está atrasado 20 anos em relação ao resto do mundo.
Vamos por partes, de "panque" este V nada têm, é Pope do Senhor. Pope nostálgica devedora à New Wave e No Wave que investiram nas polifonias africanas para fazer um Pop novo e aliciante. Em Portugal, pouco aconteceu no que respeita a relações musicais luso-africanas. A Cesária Évora foi invenção dos franceses. Houve ausência deste continente musical nos medias e em eventos públicos até os Buraka apareceram em 2006 para dar uma volta ao "som sistema", isto para resumir muito ao de leve a nossa ingratidão e racismo cultural.
Guillul, panque roquer e pastor protestante, assumiu o paradoxo e em cooperação com outros alinhados trouxe a língua portuguesa de volta à música moderna portuguesa, em parte fez um exercício de memória dos anos 80 (não é à toa que Rui Reininho participa neste disco), mostrou que o DIY rende e no meio apostou demasiado no cantautorismo -o seu pecadinho menor, até porque Guillul nunca esteve completamente embrulhado nessa fossa de choramingas. Uma costela africana saia-lhe de vez em quando, agora brotou uma espinha completa, só lhe falta a bunda de preta!
Samplou vários materiais evangélicos em loops, meteu a sua mensagem em letras Pop bem escritas e cá está o quinto volume de músicas Pop orelhudas e inteligentes. Falta-lhe é a agressão panque (esquecida por enquanto?) e a loucura Afro (a explorar no futura? a soltar a franga?). Talvez seja um álbum de transição mas sobretudo é um álbum de coragem afinal ele (acompanhado por Silas) gravou num estúdio profissional, o da Valetim de Carvalho, a "abbey road portuguesa". Talvez por isso que esteja limpinho? Talvez para a próxima precisam de um produtor (de música electrónica) cromo do Norte para aquecer este mambo.

Na versão vinilo de V foi incluído um CD-R grátis intitulado O Antes e Depois dos Gratos Leprosos, banda de Tiago & cia até 2005, antes dos Lacraus e dos sucessos mediáticos da FlorCaveira. As músicas foram reutilizadas ao longo da carreira das várias bandas de Guillul, sendo que em 2009 reuniram-se para regravar o legado. Este disco é o paradigma FlorCaveira antes de se estragar - ver resenhas críticas neste blogue.
Resta referir que fiz a capa para este disco e em troca o Guillul prefaciou-me o meu último livro, Talento Local. Por isso acabam aqui os meus comentários obviamente comprometidos.

Tenho cópias deste disco para quem quiser desde que compre um dos meus livros: Noitadas ou Talento. Limitado ao stock existente. E também a versão vinil (com o disco dos Gratos) e versão CD digipack - desconto 20% para sócios da CCC.

Qu'Inferno

Os Gajos da Mula; Jul'09

Voltámos a ter acessível o último título estrabólico dos Gajos da Mula lançado durante o evento após o Mula Ruge. Antologia com trabalhos de Miguel Carneiro, Marco Mendes (ambos repetindo os trabalhos que estão no Crack On, os batoteiros!), Arlindo Silva, Filipe Abranches, João Maio Pinto, André Lemos, Von Calhau, José Feitor, Jucifer, Lígia Paz, Nuno de Sousa, Carlos Pinheiro e Carlos Zíngaro, "encapados" em serigrafia em que todos os 300 exemplares tem cores diferentes.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Puro Turbo Folk!


A Caravana Underground portuguesa saiu no semanário sérvio independente Vreme, duas páginas em bd por Aleksandar Zograf - aqui em pormenor, a preto e branco (sai a cores na revista) e em inglês, ou seja a versão a sair no livro da tour em breve.
...
Na capa, a Raínha do Turbo Folk a ser chamada de "putovanja" (putéfia? não pode ser!). Explica Zograf: «She definitelly is "puta", not "puto"! Putovanja means travels. Ceca went to Australia, just before another trial, I think, as she did some illegal money transfers while selling football players in her club... She did it years ago, but obviously some political figures are defending her from being prosecuted... Anyway, at Vreme they told me that magazine sells better whenever she appears on the cover, so it's good for the strip... » Mais sérvio não podia ser!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Vida e mortes da Bedeteca de Lisboa

Como por certo saberão a Bedeteca de Lisboa vem definhando, num triste estado de abandono. Primeiro foi o desmantelamento da equipa de trabalho. Agora a Câmara parece preparar, da costumeira forma indirecta e difusa (cobardolas!!), a estocada final, com a ocupação das instalações para outros usos. Tudo isto sem assumir nada, bem entendido.

Pois é, aquele sítio onde durante mais de uma década fizemos livros, exposições, amigos, concertos e o mais que sabemos, esse sítio parece que é desta vai mesmo à vida!

Para já circula uma petição digital dirigida à CML - não sei qual a eficácia da coisa mas já assinei e sugiro que faças o mesmo

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N5472

Suponho que devíamos avançar também para a acção directa e (re)ocuparmos todos, por um dia que seja, as instalações da Bedeteca!

Queremos a Bedeteca de volta, as ovelhas essas já têm onde pastar, na Quinta que é mesmo lá ao lado!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa



não é o cartaz oficial (não há!?) mas o André Lemos fez um fixe que decidimos roubar para este "post"!

Inaugura no dia 10 de Janeiro (Segunda-Feira) às 19h30, no Museu Berardo - no Centro Cultural de Belém - a exposição Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa comissariada por Pedro Moura.

«Esta exposição visa dar uma perspectiva ampla da criação da banda desenhada portuguesa, procurando o encontro com novos públicos diversificados e expandindo a percepção social desta linguagem. A banda desenhada é sobretudo conhecida como uma linguagem de entretenimento, de massas, afecta ao público infanto-juvenil, sendo muito difícil que alguém não conheça as muitas personagens famosas que compõem essa paisagem cultural. No entanto, tal como em quase todos os outros campos artísticos, a banda desenhada também tem um número de autores que a procuram empregar como um meio de expressão mais pessoal, ou uma disciplina artística aberta a experimentações várias, informadas pelos discursos contemporâneos. Seja pelo lado da escrita, com autores a explorar a autobiografia, uma abordagem da paisagem cultural nacional, problemas de género ou políticos, seja pelo lado da visualidade, explorando novas linguagens, estruturações da página e até graus de abstracção. O mercado de banda desenhada em Portugal, não sendo propriamente forte nem muito diverso, quer em termos de traduções de obras contemporâneas ou históricas quer de trabalhos originais nacionais, é contraposto por toda uma série de experiências em círculos da edição independente ou de projectos alternativos que tem sido um produtivo solo para criadores extremamente interessantes e inovadores.

A exposição presente focará sobretudo autores modernos e contemporâneos – ainda que haja um desvio por dois autores históricos, experimentais na sua época: Rafael Bordalo Pinheiro, o “pai” da banda desenhada moderna portuguesa, e Carlos Botelho, autor do magnífico Ecos da Semana – que procuram elevar a banda desenhada a uma linguagem adulta e inovadora artisticamente. Do desenho suave de Richard Câmara às experiências de Pedro Nora, do minimalismo a preto-e-branco de Bruno Borges à multiplicidade de Maria João Worm, da presença solta de Teresa Câmara Pestana à exuberância das cores de Diniz Conefrey, da austeridade de Janus à vivacidade de Daniel Lima, haverá um largo espectro, ainda que pautado por critérios de pertinência artística, representativo desta área no nosso país. Estarão presentes autores de algum sucesso comercial e crítico (como, por exemplo, José Carlos Fernandes, António Jorge Gonçalves, Filipe Abranches, Nuno Saraiva e Victor Mesquita) e outros autores de círculos mais independentes (de Jucifer/Joana Figueiredo a André Lemos, Miguel Carneiro e Marco Mendes); autores cujas bandas desenhadas parecem obedecer às regras mais convencionais e clássicas da sua fabricação mas para explorar temas disruptivos (como Ana Cortesão, Pedro Zamith e Marcos Farrajota) e outros que as parecem ultrapassar em todos os aspectos (como Nuno Sousa, Carlos Pinheiro ou Cátia Serrão); e ainda artistas que criaram objectos impressos que empregam elementos passíveis de aproximação a uma leitura ampla da banda desenhada, isto é, fazem-nos pensar numa sua possível definição ou apreciação mais alargada (como Eduardo Batarda, Tiago Manuel, Isabel Baraona e Mauro Cerqueira). Nalguns casos, a exploração que os artistas fazem do desenho ganham corpo noutros objectos que não de papel, e que serão integrados nesta mostra (animações, esculturas, bonecos, maquetas, e fanzines-objecto, com larga incidência para aqueles criados por João Bragança).

A lista, que não pretende, de forma alguma, o que seria impossível, ser vista nem como absoluta nem como exaustiva, dos artistas é como segue: Alice Geirinhas, Ana Cortesão, André Lemos, António Jorge Gonçalves, Bruno Borges, Carlos Botelho, Carlos Pinheiro, Carlos Zíngaro, Cátia Serrão, Daniel Lima, Diniz Conefrey, Eduardo Batarda, Filipe Abranches, Isabel Baraona, Isabel Carvalho, Isabel Lobinho, Janus, João Fazenda, João Maio Pinto, José Carlos Fernandes, Jucifer (Joana Figueiredo), Luís Henriques, Marco Mendes, Marcos Farrajota, Maria João Worm, Mauro Cerqueira, Miguel Carneiro, Miguel Rocha, Nuno Saraiva, Nuno Sousa, Paulo Monteiro, Pedro Burgos, Pedro Nora, Pedro Zamith, Pepedelrey, Rafael Bordalo Pinheiro, Richard Câmara, Susa Monteiro, Teresa Câmara Pestana, Tiago Manuel e Victor Mesquita.»

A exposição estará patente até 27 de Março e será acompanhada por um catálogo com textos de Domingos Isabelinho, Pedro Moura e Sara Figueiredo Costa, a ser distribuído pela Associação Chili Com Carne.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

BD em Portugal: Não é uma marcha, é um zig-zag!

Acabou-se! O pior já passou!? Os 10 anos da indefinição? Os anos do início de Século em que não se passa nada? A década tenebrosa que até lhe dedicamos um livro-vade-retro-satananás?

Ao contrário ao estado geral de desânimo, a Chili Com Carne não acha que a nova década será pior que a anterior... mais baixo não podíamos ter chegado!!!

A cena da bd portuguesa nos últimos 8 anos foi deslizando pelo cano abaixo, mostrando que o sector privado era mesmo desastroso - ou seja que os "grandes editores" eram (e são) umas grandessíssimas bestas que conseguiram matar tudo o que havia ou que estava a ser construído. As pequenas ou médias editoras (simpaticamente apelidando desta forma) mostraram-se demasiado dependentes dos apoios da Bedeteca de Lisboa que teve um papel principal da renovação da bd no final dos anos 90 e princípios dos 00's. Hoje esta instituição é um edifício abandonado onde por acaso ainda deixam dois funcionários atenderem (da melhor forma que podem) os utentes interessados em bd. Depois de anos a defender bd e ilustração como nunca antes foi feito, esta Bedeteca merecia um destino menos triste, ou pelo menos reacções públicas dos autores e outros agentes que durante anos usufruíram dos seus serviços e esforços.

Todo o trabalho que a Bedeteca de Lisboa de mudar a imagem bedófila da bd parece até que foi razão para ser contra-atacada com mais força pelos “suspeitos do costume” que insistem em ter uma atitude restritiva da bd como um objecto de cultura Pop, em que toda e qualquer aproximação que não seja infantil ou infantiloíde é rejeitada. Mas o Ancien Régime cai a olhos vistos e o recente livro do Leonardo de Sá será o seu Canto do Cisne.

Que fique para trás as distribuidoras de livros que não pagam e provocam danos às editoras que se esforçam num mercado em autofagia capitalista, sem controlo e em colisão constante. O livro tornou-se num produto tão vulgar como um sapato - e nada pior que entrar numa loja de sapatos, acreditem! As lojas de referência fecham, cá e lá fora... como sustentar uma biodiversidade do livro num panorama assim?

Com dignidade e independência será a resposta para a anterior pergunta seja ela retórica ou não... é o que temos feito como Associação ou em projectos a solo dos nossos associados (Imprensa Canalha, MMMNNNRRG, etc…) ou em parcerias mais ou menos indisciplinadas cujo zénite é mostrado nas duas edições semestrais da Feira Laica.

A CCC ao longo da sua actividade nunca dependeu nada de nada para fazer o que já fez, estando contra tudo e todos. Raramente recebemos apoio de críticos, do mercado ou de instituições. Ocasionalmente tivemos apoios da Câmara Municipal de Cascais ou do Instituto Português de Juventude mas são tão parcos que não nos influenciam nas acções que tomamos, tanto que até existe uma certa censura da Câmara Municipal de Cascais em apoiar as nossas publicações porque elas cospem no Dalai Lama ou publicam o Mike Diana. Ainda assim insistimos em crescer a olhos vistos: livros a saírem com maior regularidade, livros que esgotam, livros que quase esgotam em menos de um ano, mais sócios interessados e interessantes, descoberta de novos talentos, o dobro e novo recorde de vendas – só não percebemos é porque continuamos com a conta bancária na mesma… é mesmo estranho!; participação ou criação de eventos nacionais e internacionais: O Último Fósforo, Festival Rescaldo, Feira(s) Laica(s), PEQUENO é bom, 10 anos da MMMNNNRRRG, Greetings From Cartoonia (no Festival de Beja), Crack, Festa do Cinema do INATEL, Even my mum can make a book, F.E.I.A., Alt Com, Not Tex Not Mex, Matanças… Do Texas à Turquia, portanto!

Isto já para não falar micro-epopeia inédita (pelo menos em Portugal) da Spreading Chili Sauce around Boring Europa, para mostrar que podemos ser mais bem recebidos do que no país de origem. O que não espanta muito quando o primeiro prémio sobre uma edição nossa – o Seitan Seitan Scum - alguma vez recebido foi em Itália no evento Slow Comics 2010. Embora, no início do ano passado, a MMMNNNRRRG tenha recebido um Prémio Titan...

Para mim, lançar o livro Talento Local – e concluindo a compilação das minhas bd's autobiográficas – é o mesmo do fecho de um ciclo maior. Poderá ser pretensioso adaptar esta “edição de intimidades” como um marco macroscópico mas estando “Deus morto”, a “História finalizada” e tudo mais, são as referências pessoais que marcam cada um de nós - também pode ser lido ao contrário, há um novo ciclo e eu também começo um como formiga bem-comportada do Universo. Para mim, 2011 e a nova década são nitidamente um novo ciclo a explorar – não serei o único a sentir isso, creio.

A tristeza eterna de ver horas de trabalho em pranchas de bd que ninguém quer saber – incluindo as ditas pessoas da “cena” – é deprimente. A luta de procurar alguém que nos dê atenção sempre teve de ser desviada para outros olhares menos quadrados, durante um período de tempo pensou-se que ia mudar essa perspectiva mas os agentes económicos insistiram em esmagar as conquistas, chegando a sacrificarem-se a eles próprios – em Portugal, todos gostam de estar juntos na merda.

Como dito anteriormente, continuou a haver resistentes e os resultados vão aparecendo pouco a pouco – a verdade é que quando o trabalho é bom ele não pode ser simplesmente apagado! Assim para a semana inaugura no Museu Colecção Berardo (no Centro Cultural de Belém), a exposição Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa comissariada pelo Pedro Moura, estando a exposição patente entre 10 de Janeiro a 27 de Março. O objectivo é divulgar uma bd de autor, uma bd que em Portugal tem origens nobres em Raphael Bordalo Pinheiro, continuando pelo regime fascista com Carlos Botelho, depois com o “reboot 25 de Abril” e a geração da revista Visão até aos dias de hoje. Haverá críticas dos sectores conservadores sobre a escolha de Moura, à qual defendemos a 100% - mesmo quando muitos autores não são do nosso gosto. É o mínimo de respeito que podemos ter porque sendo mais ingénuos ou menos ingénuos, todos eles fizeram algo para não deixar a bd sujeita a lugares-comuns e fórmulas gastas. Alguns até desistiram de fazer bd, alguns voltaram a fazer, outros foram fazendo de forma intermitente, mas esperamos que este lento reconhecimento institucional sirva de lição para todos nós.

Sendo o “dinheiro o nosso Deus”, muitos irão perguntar que ganharão os autores com esta exposição. Será a Vaidade o único proveito mais directo que se poderá retirar daqui? Se for, este pecadilho capital não fará mal a ninguém, numa área onde nunca houve proveitos financeiros ou sociais de relevância. Mas o tempo irá responder a tudo isto…

Vamos todos morrer! Que se lixem as redes sociais!

Por fim, um descortinar de que vai ser 2011 na CCC: vamos ter um novo livro de Rafael Dionísio e uma nova colecção, ambos para este primeiro trimestre. O melhor será para Maio em que lançaremos um livro e exposição, Futuro Primitivo, que será uma demonstração de força. Bom... pelo menos de força interna, porque tentaremos mostrar o trabalho de todos os nossos criativos – até dos músicos, colaborando numa banda sonora a compilar pela net-label You Are Not Stealing Records.

Já mete-nojo, a verborreia das “redes sociais” e as porras dos myspaces e facebooks, é muito útil para saber que a Zézinha vomitou de manhãzinha logo poderá ser engatada pelo grupo fetichista por grávidas-de-3-meses, ou que há 10 pessoas gostaram (polegares no ar!) deste “post” mas como sempre nada acontece para além de meia-dúzia de observações fúteis que só servem de observatório de comportamentos para empresas e controlo social - é o que as redes virtuais parecem, muito francamente, a substituição física da porteira do prédio! Antes da modinha, a Chili Com Carne foi criada para ser uma rede social que serve para trabalhar em conjunto – se a solidão é uma doença do século XXI, tentem fazer bd: uma das actividades mais solitárias do mundo!

O desafio assumidamente egoísta de meter todos os que são da Associação num livro é cheio de ratoeiras mas vamos tentar que resulte num projecto singular. A exposição está projectada para o Festival de BD de Beja seguindo para Roma, países escandinavos e somewhere in Texas.

Quando a exposição voltar pode ser que o país esteja diferente!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Rodrigues Palmtree Zine




Rodrigues Palmtree Zine
Venda exclusiva no site da Chili Com Carne!
Zine colectivo produzido como oferta ao Sr. Rodrigues
do Restaurante Palmeira pela sua reforma ao fim
de 57 anos a nos servir as melhores imperiais e
batata frita salgada.
Edição única de 30 exemplares.
24 páginas.
Miolo impresso a laser em papel Navigator 90 gr/m2.
Capa impressa em serigrafia pelo Atelier Mike Goes West.
Dezembro 2010.
Participantes:
André Lemos, Bruno Borges, Diogo Tavares,
Filipe Abranches, João Chambel, José Feitor,
Jucifer, Luís Henriques, Marcos Farrajota,
Miguel Frazão e Piggy.
Organizado, editado e impresso por André Lemos.
ESGOTADO

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dicionário Universal da Banda Desenhada : pequeno léxico disléxico

Leonardo De Sá
Pedranocharco; 2010

Eis uma valente edição do ano passado que merece ser promovida. Sim! É um dicionário (ou será mais antes um glossário ou um léxico?) de expressões, termos e palavras únicas empregues na BD – e na cultura popular uma vez que a bd sempre teve uma forte componente popular ao longo da sua história. Há logo três pontos fortes nesta edição, a começar pela quase ausência de obras de estudo ou de investigação ou de referência em Portugal, logo é inesperado uma edição deste género estando a Pedranocharco de parabéns! Segundo, é realmente um apanhado de 99,9% do que se pode falar de bd em Portugal e no Brasil – e nos Palop’s em geral? – mostrando por parte do autor uma enorme sabedoria sobre o assuntos dos dois países e também do resto do mundo. Terceiro, é um guia bastante interessante para qualquer curioso do mundo editorial e da cultura Pop – para quem tinha uma vaga ideia do que é um “Pulp” ou que é a “serigrafia” poderá aqui ter uma excelente e sintetizada oferta cultural.
Falhas, há muitas, algumas graves, outras ridículas e outras leves, como seria natural numa obra deste género apesar da tendência para o “completismo” acaba sempre por haver erros, gralhas e omissões (espontâneas ou propositadas). Talvez o leitor não saiba mas nunca haverá um livro perfeito (sem erros de qualquer espécie) por mais que o editor ou o autor se esforce... haverá sempre uma vírgula que falta ou sabe-se lá porquê uma palavra com uma letra trocada ou mal-traduzida.
Mas não é este tipo de “falhas” que acontecem aqui (nem detectei nenhuma desse género), começa por algo de perverso e doentio ao estilo do romance 1984 em que muitos significados não são dados sendo que temos de saltar com as remissivas antagónicas – para sabermos o que é “mainstream” somos obrigados a saltar para “underground”, o que convoca a tal ideia de 1984 em que o “Ministério da Guerra” era o “Ministério da Paz”, ou posto de outra forma, quem domina a linguagem domina a sociedade. Alguns casos parece que estamos frente uma preguiça – sei que poderá ser uma acusação injusta dado a todo o conjunto da obra – mas não me parece bem feito e piora quando para “vignettista” (cartoonista em italiano”) remete-se o significado para “vinheta” (e aí é explicado o que é “vignettista”).
O problema de ser “cromo da bd” é que parece que o “outro mundo” não existe daí que linguagens mais modernas e urbanas falhem, como por exemplo “webcomics” (não está contemplado) ou “Zine” é remetido para “fanzine” quando desde há muito tempo, pelo menos em países anglo-saxónicos, os termos separaram-se. “Fanzine” continua a ser uma publicação amadora que celebra um tema enquanto que o “zine” é uma publicação amadora que nada deve a ninguém a não ser ao imaginário dos seus autores e editores. Felizmente o autor não incluiu uma expressão do divulgador Geraldes Lino que é “fan-editor” ou “edi-autor” (ou algo assim!) mas inclui a infeliz expressão “Fanálbum” que nada é mais que uma “edição de autor” ou “livro de autor”. O Lino começou a divulgar (desde 1996 pelos vistos) e agora ficou sacralizada por este Dicionário. É triste, ainda por cima a justificação dada é que a expressão apareceu na Alemanha para álbuns de música amadora – gosto muito da língua alemã mas é uma língua que para “isqueiro” diz “coisa-de-fogo”… Para quem acha que tem rigor científico, o Dicionário começa-se a desmanchar com estas situações. Outra, a inserção de “cartoon desdobrado”, neologismo do autor do Dicionário, que pelos vistos é o único a usar e por isso a imortalizar nesta compilação única no género em Portugal.
Aliás, o egocentrismo do autor é galopante ao longo de toda a obra, não faltando várias vezes auto-referências que se algumas vezes são merecidas noutras podia ser modesto e auto-crítico. E por falar nisso, a entrada “crítico” é a anedota maior deste trabalho. Se é verdade que o autor vai usando um humor mais ou menos saudável – manda bocas ao excesso de exemplares para o Depósito Legal, por exemplo – mostra-se um verdadeiro imbecil (não me lembro de outra palavra muito sinceramente) quando define os críticos como “autores falhados, mas com conhecimento e experiência suficientes para analisar o trabalho dos outros”. Talvez noutro Dicionário menos disléxico mereça uma entrada do tipo “investigador é um crítico falhado mas que colecciona muitas coisas de interesse relativo”. Mas o ainda mais ridículo é que o livro recebe um prefácio de Carlos Pessoa, crítico de bd do jornal Público, que por acaso encaixa em quase todos os chavões que Leonardo propõe para crítico... Quem será mais ridículo entre os dois? «The Shadow Knows…»

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As serigrafias valentes do Martin!

Para acabar com os "posts" da visita do Martin à Laica nada melhor do que acabar com o melhor, o seu próprio trabalho. Tal como ele brincou na sua biografia: De Valência, cidade onde vive trará (...) edições do seu projecto Gráfica Valiente, que desde o Inverno de 2006 tenta destruir o mundo destabilizando a economia europeia com os seus zines e serigrafias caseiras e, eventualmente, com exposicões. Edita o zine El Temerario, dedicado à ilustração, e Kovra, dedicado à bd.

As palavras citadas resumem os seus projectos principais, o Temerário é uma antologia quadrada de ilustração com uma capa serigrafada. Ilustrações com pica (sobretudo as do Martin) que andam pelo puro hedonismo, pelo quotidiano non-sense e alguma mensagem política (pouca). O zine é super-atraente (pelo formato e objecto) tanto que logo no ínicio da Tour europeia da CCC trocamos exemplares e não chegou nenhum exemplar a Portugal - ficaram todos pela Itália, Eslovénia, etc... 
Sem o sucesso de vendas do Temerário, Kovra (ver aqui a capa do segundo número de Outubro 2010) é muito mais importante. É um zine de bd em castelhano - daí a "falha" das vendas. É a eterna injustiça das "línguas" que nos impede de adquirir publicações que não se consegue ler. Não será o caso em Portugal que podemos ler sem grandes problemas o "espanhol" por isso adquirem antes que se esgote este zine. Porquê o grande alarde? Apesar de não ter o mesmo aspecto profissional das outras revistas de vanguarda como a Canicola ou a Glömp, ou a conterrânea Argh!, julgo que poderá estar ao mesmo nível de interesse e qualidade. A verdade que o aspecto modesto esconde experimentalismos próximos do OuBaPo, o abstratismo, o seguimento da técnica narrativa dos “The Upside-Downs of Little Lady Lovekins and Old Man Muffaroo" (1903-05) de Gustave Verbeek, recuperação do psicadelismo 60/70 ou ainda do italiano Jacovitti. Isto tudo em 56 páginas A5. Uma publicação obrigatória para quem gosta de bd!
Por fim, Martin fez umas marionetes que se puxam a pila ou a língua e os membros dos bonecos levantam-se - ver as primeiras imagens deste "post". A impressão é em serigrafia e a colecção chama-se Jala Jala. Mostra que quando um desenhador e impressor tem ideias mete qualquer "artesanato urbano" no canto da mediocridade.